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segunda-feira, 2 de abril de 2012


SEGUNDO CAPÍTULO
ARTE EUROPÉIA NO BRASIL
  1. A ocupação da terra
Embora a arte anterior ao descobrimento tenha apresentado linguagem rica em simbologia e bastante representativa da criatividade, sensibilidade e habilidade dos povos pré-históricos, quando os portugueses chegaram essa produção não foi valorizada. Os europeus nem acreditavam que os povos aqui encontrados tivessem “alma”. Esse preconceito foi tão forte e duradouro que somente no século XIX a cultura pré-cabralina (anterior a Cabral) e a indígena começaram a ser reconhecidas e estudadas.
Por mais de trinta anos após a chegada de Cabral, apenas algumas expedições de reconhecimento e patrulhamento vinham até a nova terra descoberta. Algumas vinham também com o objetivo de explorar nossos recursos naturais, principalmente o pau-brasil, que fornecia valiosa substância corante.
Com os donatários e governadores das Capitanias Hereditárias, começaram a chegar ao Brasil, em 1534, nossos primeiros habitantes europeus: aventureiros, escravos, órfãos, religiosos, serviçais, artilheiros, mercenários, degradados e cristãos novos (judeus cristianizados à força) que fugiam da Inquisição.
A preocupação das autoridades portuguesas desse período era:
·         Ocupar seu território para defendê-lo;
·         Ensinar sua cultura e sua fé aos primitivos;
·         Evitar que os portugueses esquecessem suas próprias raízes religiosas e culturais.

Lopo Homem (Pedro e Jorge Reinel). Terra Brasilis, mapa do Atlas Miller, 1515-1519, manuscrito iluminado sobre pergaminho, 41,5 x 59 cm.

A Igreja Católica (jesuítas, beneditinos e franciscanos) era responsável pelas manifestações artísticas permitidas, e o governo se encarregava das construções militares de defesa do território.

 Primeira igreja construída no Brasil – Cosme e Damião, em Igarassu – PE.

Quando os portugueses começaram a se estabelecer no Brasil, na Europa estava em transição e, em busca da emoção, começava a abandonar o estilo renascentista. A arte da Renascença caracterizava-se pela razão, pelo equilíbrio, pela simplicidade e por ter como modelo os clássicos gregos e romanos

Renascimento:
·         Razão
·         Objetividade
·         Imitação dos gregos e romanos (Classicismo)
·         Equilíbrio
·         Simplicidade
·         Homem como centro do universo (antropocentrismo)

 Michelangelo. Davi, 1501-1504, mármore.
 Leonardo da Vinci. La Gioconda, óleo sobre tela, 77 x 53 cm.

As novas invenções, as grandes navegações, as turbulências políticas e religiosas causavam muita agitação intelectual, e tudo se refletia numa atitude mais ousada nas artes, o que configurou um estilo também turbulento: o Barroco.

Barroco:
·         Emoção
·         Subjetividade
·         Temas religiosos (teocentrismo)
·         Conflito
·         Rebuscamento
·         Contra-Reforma

 Gian Lorenzo Bernini. O Êxtase de Santa Tereza, 1645-1652, mármore, altura 350 cm.
 Caravaggio. A Ceia em Emaús, 1600-1601, 140 x 195 cm.

  1. A arquitetura colonial para defesa e para devoção
A primeira manifestação artística dos portugueses no Brasil foi a arquitetura: as fortalezas e as construções religiosas. Muitas das edificações eram enviadas, pedra por pedra, de Portugal, como carga de retorno das embarcações que iam daqui carregadas das nossas riquezas naturais. Essa arquitetura colonial, apenas montada aqui, permaneceu, por muito tempo, como uma expressão direta da arte portuguesa. E mesmo os artesãos que aqui trabalhavam tinham as obras européias como modelo e os europeus como mestres.
Como não havia muitos recursos financeiros e humanos, a construção dos nossos edifícios importantes se arrastava por anos e anos, o que favorecia constantes alterações do projeto original. Edifícios originalmente severos e simples (ainda com linhas inspiradas nos clássicos) eram cobertos pouco a pouco de entalhes, pinturas e imagens, muitas vezes ornamentados em ouro.

 Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro – RJ.

O Governador-Geral trouxe o mestre de pedraria Luís Dias com a tarefa de fortificar a cidade de Salvador e de construir sua Alfândega e sua casa de Câmara e Cadeia. As fortificações procuravam defender a costa brasileira dos ataques de estrangeiros, principalmente franceses, que pretendiam aqui se instalar para dominar o território e explorar suas riquezas.
O arquiteto Francisco Frias de Mesquita (1578-1645) construiu diversos fortes na região do Nordeste brasileiro, como a Fortaleza dos Reis Magos, em Natal, em que o entrelaçamento com a religião fica evidente: o nome e o formato de estrela de cinco pontas, conveniente para oferecer 10 pontos diferentes de visão.

 Forte dos Reis Magos, Natal – RN.
 Forte de São Marcelo, Salvador – BA.

  1. A presença dos Jesuítas
Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 e construíram igrejas monumentais, seminários e escolas de catequese e de artes e ofícios. Essa presença deixou suas marcas da Amazônia ao Rio Grande do Sul.
A arte devia servir a Deus e transformar as cerimônias em espetáculos fascinantes e sedutores. Entalhes, pinturas, ouro, prataria, estatuária, ricos tecidos constituíam o cenário propício ao culto religioso.
A luz de inúmeras velas refletindo-se no ouro e nos objetos de prata – lustres, turíbulos (objeto preso a correntes para espalhar incenso ao ser balançado), objetos litúrgicos das celebrações – criava um ambiente espetacular.

 Tocheiros, meados do século XVIII, prata, 67,5 x 20 cm cada peça, provavelmente Bahia, Brasil.
 Turíbulo, século XVIII, anônimo, prata, 19,5 x 12 cm, Brasil.

Na Europa, essa grandiosidade da igreja fazia parte da Contra-Reforma e tinha como objetivo combater a influência e a expansão dos protestantes. No Brasil o objetivo era outro: favorecer a catequese, atraindo novos fiéis. Os grandiosos templos, muitas vezes construídos em pequenas vilas, deviam atrair não apenas os senhores proprietários de terras, mas toda a população do entorno. Alguns imitavam fielmente igrejas de Lisboa e da Itália.

 Capela Dourada, Recife – PE.

  1. Missões Jesuíticas
As Missões ou Reduções surgiram por esforços diretos dos jesuítas junto aos índios Guaranis, sem apoio financeiro dos reis de Portugal e da Espanha. A região em que atuaram os jesuítas ficava a oeste do atual estado do Rio Grande do Sul, nos limites entre Brasil, Argentina e Paraguai. Por volta de 1610 essa zona era de colonização espanhola, mas durante 140 anos, isolada das potências colonizadoras, pôde desenvolver-se sob o comando dos padres, com base numa agricultura comunitária. O tempo livre era dedicado à religião e à arte.

 Ruínas das Missões – RS.

As igrejas missionárias representam ainda uma manifestação da cultura européia, revelada através da habilidade dos arquitetos religiosos e da capacidade de assimilação da mão de obra guarani. Na Missão de São Miguel, no Rio Grande do Sul, estão as ruínas da igreja projetada pelo jesuíta italiano João Batista Primoli, que teve como modelo a Igreja de Jesus em Roma.
A escultura em pedra e madeira, bem como a pintura desenvolveram-se com o objetivo de realçar as igrejas e as cerimônias litúrgicas. Incorporavam-se à tradição européia figuras tipicamente tropicais, como frutas e pássaros. Instrumentos musicais eram fabricados para servir à música também criada com fins religiosos.

  1. A presença holandesa
Em 1630, os holandeses ocuparam Pernambuco e boa parte da região Nordeste, de onde somente foram expulsos em 1654. Nesses vinte e quatro anos de permanência, o trabalho dos pintores holandeses foi a herança cultural mais notável. Convidados pelo príncipe Maurício de Nassau, governante do Brasil Holandês de 1637 a 1643, vieram artistas que pela primeira vez focalizaram assuntos desligados de temas religiosos. Paisagens, naturezas-mortas, retratos, figuras humanas e de animais constituíram um grande painel do Brasil no período.
Um dos mais importantes entre esses pintores é Franz Post (1612-1680).  Pintou paisagens, vistas de portos e fortificações. O seu quadro “Vista de Itamaracá” é considerado a primeira pintura que retrata fielmente o novo mundo.

 Franz Post. Vista de Itamaracá, 1637, óleo sobre tela, 63,5 x 89,5 cm.

Tinha apenas vinte e quatro anos quando veio para o Brasil com a missão de documentar em quadros a óleo a sede dos holandeses no Nordeste. Permaneceu aqui de 1637 a 1644, quando produziu pelo menos 18 quadros a óleo em tela e inúmeros desenhos.
Albert Eckhout veio com Nassau e aqui permaneceu durante sete anos. Um de seus temas principais era o habitante nativo do território brasileiro. Os personagens retratados obedecem a um esquema estrutural predominante: são vistos solitários, em meio à exuberante vegetação tropical, numa composição vertical. Um quadro que foge a essa regra é “Dança dos Tapuias”, que representa um grupo de indígenas dançando com seus tacapes, e alcança grande realismo e senso de movimento. Eckhout produziu também doze naturezas-mortas de senso figurativo avançado para a época e várias ilustrações científicas da fauna e da flora brasileira.

 Albert Eckhout. Mameluca, 1641, óleo sobre tela, 267 x 160 cm.

 Albert Eckhout. Dança dos Tapuias, óleo sobre madeira, 168 x 294 cm.

Esses dois grandes pintores e desenhistas refletem o interesse que a Europa tinha pelo exótico proveniente das novas terras descobertas. Embora tenham incorporado nossos temas tropicais aos seus trabalhos, ainda representa a arte européia feita por europeus no Brasil, e não uma arte propriamente brasileira. Ao lado dessa produção consagrada, temos as obras de vários pintores anônimos, que não se preocupavam em nomear suas obras, geralmente feita por encomenda. Um exemplo é o painel Batalha dos Guararapes, que se encontra em Pernambuco.

Para conhecer melhor
         Nesse quadro de Franz Post, podemos observar a intenção de documentar a paisagem de forma realista. É o nascimento da paisagem como tema valorizado na pintura, pois os estrangeiros tinham interesse em retratar os trópicos. Procuravam acentuar o caráter exótico e a cor local.

 Franz Post. Garassu, gravura em cobre, pintada à mão, extraída do Rerum per Octennium in Brasilia de Gaspar Barléus, 1647.

         O tema paisagístico, que não era freqüente até então, e a composição do quadro refletem a transião entre os princípios do Renascimento, que propunha o equilíbrio e a simplicidade, e os do Barroco nascente, que buscava a intensificação dos opostos, o claro versus escuro, a exuberância e a emoção.
         Em primeiro plano, as vestes claras e escuras das pequenas figuras atuam como ponto de atração, para que o observador focalize seu olhar de forma a construir a noção de profundidade. Essa perspectiva é também produzida por meio do uso de detalhes nítidos nos primeiros planos e das cores azuladas decrescentes ao fundo, até se fundirem com o céu.



Referência bibliográfica
·         GARCEZ, Lucília. OLIVEIRA, Jô. Explicando a arte brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

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