PRIMEIRO CAPÍTULO
A ARTE ANTES DE CABRAL CHEGAR AO BRASIL
1. Arte Rupestre
Muito tempo antes de Pedro Álvares Cabral chegar ao
Brasil, o nosso território já era habitado. Os arqueólogos, pesquisadores que
estudam as civilizações pré-históricas por meio de escavações e análise de
objetos e desenhos nas pedras, calculam que entre 40 mil e 12 mil anos a.C. já
existiam grupos nômades, caçadores, pescadores vivendo aqui. Provavelmente
vinham da Austrália, do Oceania ou da Ásia.
As pinturas e gravuras deixadas por eles são o
testemunho de sua passagem. Esses registros em diferentes suportes de pedra são
chamados de arte rupestre ou itacoatiaras: paredes e tetos de cavernas e
abrigos, blocos no chão, pedras nos leitos dos rios, e lajes a céu aberto.
As pinturas rupestres brasileiras mais antigas
foram encontradas na região de São Raimundo Nonato, no Piauí.
Pintura rupestre
do Parque Nacional da Serra da Capivara em São Raimundo Nonato – PI.
São desenhos de animais, pessoas, plantas e
objetos, muitas vezes retratando cenas da vida cotidiana ou eventos
cerimoniais.
Também em Minas Gerais há arte rupestre. Na região
de Lagoa Santa encontram-se cenas de caça com uso de flechas, armadilhas
aprisionando veados, e grandes redes com peixes, retratando movimento.
Além das pinturas, muitos sítios apresentam outro
tipo de arte rupestre, denominada gravura. Foi utilizada a técnica da abrasão
(ou raspagem) das pedras, resultando figuras em baixo relevo.
Os temas na arte rupestre são bastante variados.
Alguns grupos utilizavam, por exemplo, desenho geométrico, trabalhando com
formas não representativas e desenhando pontos, traços e círculos em diferentes
tamanhos e combinações.
Outros grupos adotavam o desenho figurativo, com
representações de pessoas, animais, árvores, objetos. Também os estilos variam:
existem figuras formadas apenas por linhas de contornos, outras apresentam
pinturas cheias, outras, pontilhadas, alguns aproveitam o relevo da pedra para
dar a impressão de volume.
Pintura rupestre
no painel da Pedra Pintada em Barão de Cocais – MG.
A arte rupestre constitui talvez o vestígio
arqueológico mais difícil de ser analisado, pois não conhecemos bastante o
contexto social em que os desenhos foram criados. É uma representação do mundo
real, na forma de um símbolo. Mas o significado dos símbolos pode variar muito,
de sociedade para sociedade. Assim, quando um artista desenha um traço vermelho
na rocha pode, por exemplo, estar retratando a figura estilizada de um homem,
ou pode estar marcando a passagem do tempo. As possibilidades de interpretação
tornam-se, assim, infinitas. O desenho pode estar funcionando como meio de
comunicação, como forma de magia, como arte pura, como uma pré-escrita, como
marcador de territórios.
Mas é certo que nessas manifestações já existe o
impulso de produzir elementos estéticos e o desejo de expressão de um
pensamento ou de um sentimento. Por isso podemos dizer que se trata de arte.
Como estão ameaçados por diversas formas de
destruição, Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) se encarrega de
tombar esses registros, com o intuito de preservá-los.
Gravuras rupestres
dos índios Carijós em Mar do Arvoredo – SC.
2. Arte Marajoara e
Tapajó
Há vestígios de culturas amazônicas com alto grau
de desenvolvimento na fabricação e na decoração de artefatos de cerâmica, como
as da ilha de Marajó e da bacia do rio Tapajós. Pouca coisa restou da cultura
dos índios Tapajós, grande nação que habitava a região de Santarém. Apenas os
muiraquitãs, pequenas esculturas de rãs em pedra, os machados polidos e uma
cerâmica tão elaborada que mais parece esculturas que simples vasos.
Em seu apogeu, a ilha de Marajó pode ter tido mais
de cem mil habitantes. Entre eles havia diversos artistas, que fabricavam
objetos cerâmicos ricamente decorados, vasilhas, estatuetas, urnas funerárias e
adornos. Esses objetos sugerem que a cultura marajoara atingiu alto grau de
sofisticação e complexidade social e política.
Foram encontradas grandes urnas funerárias,
chamadas de Igaçabas, decoradas com desenhos labirínticos, em enormes aterros
perto do lago Arari.
Os objetos produzidos pelas culturas antigas
estavam, muitas vezes, associados a rituais que eram verdadeiros espetáculos
artísticos, pois reuniam todas as manifestações (música, dança, adereços,
vasos, urnas, estatuetas) que representavam as crenças, os mitos e as formas de
expressão próprios daquelas culturas.
Muitos dos desenhos antigos servem de modelo para a
cerâmica artesanal que é produzida hoje na Amazônia e que encanta os turistas.
O Muiraquitã, símbolo das culturas amazônicas, é um
amuleto feito de pedra verde (nefrita).
As urnas funerárias marajoaras – igaçabas –
eram feitas em cerâmica com formatos que lembram entidades míticas.
Urna mortuária marajoara.
Vaso
tapajó que exemplifica a elaboração artística da cerâmica amazônica.
Tanga ritualística em cerâmica, usada pelas
mulheres nas festas e comemorações marajoaras.
Estatueta tapajônica em cerâmica.
3. Arte Indígena
A arte permeia todos os aspectos da vida das
inúmeras tribos indígenas (cerca de 5 milhões de índios) que habitavam o Brasil
quando os portugueses aqui chegaram. Entretanto, sua forma e suas funções,
embora também ligadas ao prazer estético, são diferentes da arte contemporânea.
A casa, a organização da aldeia, os utensílios, os
objetos de uso cotidiano e, principalmente, aqueles ligados às cerimônias e
rituais estão impregnados de um desejo de fazer coisas bonitas e agradáveis ao
olhar, de modo que sejam expressões simbólicas da cultura.
O índio investe esforço e tempo na produção de um
objeto utilitário porque preocupa-se em adorná-lo de forma especial. Podemos
compreender que procura embelezá-lo e demonstrar sua habilidade na expressão de
algo mais que a simples necessidade de uso.
A arte plumária indígena e a pintura corporal
atingem grande complexidade em termos de cor e desenho, utilizando penas e
pigmentos vegetais como matéria-prima. Portanto, a arte indígena reflete a
busca do prazer estético e de comunicação por meio de uma expressão visual. Com
a descoberta do novo mundo, os objetos produzidos pelos índios começaram a ser
conhecidos na Europa por meio de crônicas orais e escritas, desenhos gravuras e
pinturas. Muitos foram recolhidos por viajantes e naturalistas e levados para
os centros culturais, onde estão até hoje em grandes museus. Eram apreciados
mais pelo seu exotismo e pela raridade dos materiais que por sua elaboração
artística, pois não obedeciam aos padrões europeus de arte.
Manto de arte plumária tupinambá da época do
descobrimento do Brasil. Há exemplares apenas em museus da Europa.
As diversas tribos
brasileiras apresentam preferências estéticas muito variadas que se refletem na
arte, na pintura corporal e nos adereços.
Os
índios brasileiros utilizam em seus adereços, fibras, contas, penas, conchas e
outros elementos da natureza. Na foto: índios da tribo xikrin.
Pintura corporal em índios lawavalapiti do
Alto Xingu.
Cerâmicas com diversas finalidades; trançados
(cestas, redes, utensílios e esteiras); adornos plumários (mantos, cocares,
máscaras); adereços de contas, de pedras, de sementes, de cascas, de ossos, de
dentes e de conchas; utensílios de madeira; instrumentos musicais (flautas,
chocalhos, tambores); e objetos rituais, mágicos e lúdicos demonstram como as
diferentes culturas indígenas se expressavam.
Os grupos indígenas que até hoje mantém suas
tradições, como os Caiapós e os Camaiurás, demonstram como a pintura corporal é
uma forma de expressão artística e uma linguagem visual em estreita relação com
outros meios de comunicação verbais e não verbais. Além disso, apresenta outras
funções. Com efeito prático, a pintura corporal espanta os insetos e defende a
pele dos efeitos do sol. Tem também a intenção mágica de afastar os maus
espíritos. Mas, acima de tudo, é uma forma de expressão que pode ser “lida”,
pois revela intenções pacíficas ou guerreiras, sentimentos, emoções, situações
festivas ou circunstâncias religiosas, importância social, entre outras
mensagens elaboradas com capricho e minúcia.
A arte indígena, em todas as suas manifestações
anteriores ao descobrimento, demonstra não apenas recursos técnicos em
diferentes matérias-primas, como também ricas linguagens simbólicas,
representativas da criatividade, sensibilidade e habilidade dos povos
pré-históricos. Muitas dessas formas de expressão são preservadas atualmente.
Para conhecer melhor
Observe essa foto. Veja como os motivos da arte rupestre
são variados. O motivo geométrico, ou seja, que usa formas não-figurativas é
constituído de desenhos de traços, círculos, pontos em diferentes tamanhos e
combinações. Algumas vezes criam um padrão que é utilizado de forma repetitiva.
Muitos artistas, no decorrer da história e mesmo atualmente, inspirados no
enigma dessa arte, reelaboram esses motivos em seus trabalhos.
Inscrições
rupestres com traços geométricos na ilha de João da Cunha em Porto Belo – SC.
Observe esse conjunto de desenhos. Os motivos são
figurativos, representando pessoas, animais, árvores e objetos. Há estilos
diferenciados de representação da figura: linhas pontilhadas, desenho cheio com
impressão de volume, e figuras traçadas apenas pelo contorno.
Em nenhuma dessas obras podemos assegurar que a
intenção era arte pura, forma de magia, pré-escrita, forma de comunicação de
mensagens ou marcação de território. Mas compreendemos que têm força simbólica,
pois representam o mundo real.
Pintura rupestre
com traços figurativos no Parque Nacional da Serra da Capivara em São Raimundo
Nonato – PI.
Pintura rupestre encontrada em sitio
arqueológico no Parque Nacional da Serra da Capivara em São Raimundo Nonato –
PI.
Referência bibliográfica
·
GARCEZ, Lucília.
OLIVEIRA, Jô. Explicando a arte brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.